19 de fevereiro 2012

Em 2012 o Diafanes fará 10 anos de vida. Em comemoração, iremos lançar nosso terceiro álbum (que ainda não escolhemos o título) com 10 músicas. Começamos a trabalhar nesse álbum em novembro de 2011, e tivemos um longo período de pré-produção que terminou exatamente hoje com a finalização das gravações das guias. Antes de entrarmos em estúdio para começar a gravar a bateria, fazemos a gravação de todas as nossas guias no nosso estúdio de ensaio. Foi assim em todos os nossos álbuns até agora. Esse período de pré produção é fundamental, tanto para estabelecermos as idéias dos arranjos. como para que o baterista tenha melhores guias para suas tomadas.?Agora está na hora de levar todo nosso equipamento para o Estúdio Nimbus porque amanhã de manhã, plena segunda de carnaval, começaremos para valer!

Irei postar nesse blog um diário de gravação, assim quem quiser acompanhar os andamentos de nosso trabalho poderá ler tudo por aqui. O Diafanes está com uma nova formação para esse álbum. Além de mim e a Lorena, estão na banda o baterista Léo Baeta, o baixista Leandro de César.
Boa sorte para nós!

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Foto do último dia (19/02/2012) de pré-produção em nosso estúdio.

 

20 de fevereiro 2012

Hoje é dia 20/02, uma data palíndrômica perfeita para que se inicie a gravação de nosso novo álbum. Segunda-feira de carnaval. Eu cheguei no estúdio Nimbus pela manhã (quem me conhece sabe que acordar cedo não é minha praia) e já encontrei o Léo Baeta e o San Issobe (produtor de todos nossos discos) nos últimos preparativos para começar a passar o som da bateria. Em nossos discos, assim como na maioria das gravações de música popular, a bateria é o primeiro instrumento a ser gravado. A previsão é que o Léo termine de gravar as suas partes nesses dias que restam de feriado.

Assim que cheguei, dei a notícia para o Léo de que eu havia feito uma mudança de última hora em uma das músicas, intitulada “Ave”. Acontece que ontem de madrugada, quando eu a Lorena, o Leandro e a Luma terminávamos de gravar as guias, eu subitamente senti falta de uma repetição do refrão final dessa música. Como o Léo não estava presente nessa hora, ele ficou sabendo somente hoje. Obviamente a reação dele foi de estranhamento quando eu lhe comuniquei a mudança, sua expressão facial dizia: “Sério? Uma mudança na forma da música? Justo agora?”. Mas ele não reclamou, afinal ele sabe como funciona o processo criativo e tem ciência de que essas mudanças de última hora acontecem mesmo.

Curiosamente, essa pequena passagem me fez ficar pensando por horas, enquanto o som da bateria era minunciosamente passado peça por peça. Isso porque muito do que estudei e li essa semana coincidentemente tinha a ver com esse tema do processo criativo. Tudo começou na quarta-feira passada, com o Sílvio Moreira, que é meu parceiro de estudos (na verdade, é muito mais um professor) de longa data, tentando me explicar a conexão que ele via entre o tema do doutorado dele (que é sobre o filósofo alemão Ernst Cassirer) e o tema do meu mestrado (que é sobre Villa-Lobos). Nessa tentativa, ele me disse que, segundo Cassirer, uma das diferenças entre Ciência e Arte é de que a ciência trabalha com leis universais, enquanto cada obra de arte tem a sua própria lei imanente. Ele ainda me explicou que a lei imanente que rege cada obra de arte só é estabelecida quando a obra está completa (mesmo que a obra siga essa mesma lei).

Continuando essa conversa, ele sugeriu que eu lesse o capítulo “Musical Thought” (Pensamento Musical) do livro “Sound and Symbol: Man the Musician”, de Victor Zuckerkandl, e foi isso que eu fiz nesses dias que antecederam a gravação. Entre outras coisas, esse capítulo fala do livro de esboços do Beethoven, e compara algumas passagens que ali estão em rascunho com as partituras das obras finalizadas. Ele descreve como os rascunhos se desenvolveram até chegar ao resultado final, e mostra como Beethoven em alguns momentos optou por determinados caminhos que no final se revelavam insatisfatórios, e teve que voltar atrás e mudar o rumo. A todo momento, o autor nos lembra que essa análise só é possível porque nós conhecemos a obra final, previlégio que Beethoven não tinha quando escreveu os esboços. Em outras palavras, o artista, ao final de seu processo de criação, atinge um objetivo que ele nem sabia que existia. As questões que Zuckerkandl provavelmente quer levantar são: o que o compositor está buscando? o que guia tal busca? Talvez a resposta seja justamente a lei imanente que o Sílvio tentava me explicar.

Obviamente eu transpus essa idéia para as músicas que nós começamos a gravar hoje. Isso porque, todas essas músicas tiveram um longo processo de evolução desde a idéia inicial até agora. Todas elas tiveram outras versões, que soaram completamente diferente, e que, por mais que fossem o melhor que nós pudéssemos dar naquele momento, nunca nos satisfaziam por completo. Por isso, continuamos em frente, buscando soluções melhores. Como nós gravamos todos os nossos ensaios, e também fazemos nossos próprios rascunhos em partitura, podemos acompanhar esse processo desde as primeiras versões até àquelas que, enfim, julgamos definitivas. E ainda assim, no último momento, tínhamos novos ajustes a fazer. Tudo isso, guardadas as devidas proporções entre a nossa música e a de Beethoven, me pareceu muito com a discussão de Zuckerkandl.

Deixando de lado as divagações, vamos ao nosso primeiro dia no estúdio hoje. Depois de algumas horas, o som da bateria estava simplesmente perfeito. Passamos uma música para ter certeza, e como já era a hora do almoço decidimos comer antes de gravarmos, nesse momento chegaram todos da banda. Fomos na Dona Deola ali da Av. Pompéia.

Na volta do almoço, a gravação começou para valer. A primeira música que o Léo gravou foi “Penas”, uma balada da Lorena que tem climas bem diferentes. Essa diferença de climas obrigou o Léo montar duas caixas de medidas diferentes em seu set, assim ele pode tocar a primeira parte da música com uma caixa mais grave e a segunda parte com uma mais aguda. Na sequência, ele gravou uma música bem mais pesada (ainda sem título), com guitarras distorcidas e koto. O resultado realmente me surpreendeu!

Depois foi a vez de “The Leaf”, uma das minhas canções preferidas do álbum, com uma linha de bateria cheia de pequenos detalhes, que deram muito trabalho. A última de hoje foi “Padma”, uma música carregada de influências orientais, que tem algumas mudanças de fórmula de compasso e ritmos complexos de bateria e percussão. Essa foi a mais difícil do dia, e como todos (principalmente o Léo) estávamos cansados, e já era tarde, decidimos encerrar por hoje e voltar amanhã para gravar o resto. Estamos dentro do nosso cronograma planejado. Grande Léo Baeta!

Amanhã tem mais!!!

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21 de fevereiro de 2012

Segundo e derradeiro dia de gravação de bateria do nosso disco. Cheguei cedo no estúdio (afinal é ao lado de minha casa e venho a pé), antes mesmo do Léo. Aproveitei para dar uma ouvida no que foi gravado ontem. Assim que o Léo chegou, começamos a gravar novamente. Ele começou com “Sakura”, uma versão que fizemos de uma música tradicional japonesa e que não deve entrar no disco (provavelmente lançaremos depois do disco, como um bônus). Assim que começamos a gravar, percebemos que a guia que fizemos estava com alguns problemas, acidentes que acontecem quando você trabalha de madrugada e com sono. Perdemos algum tempo para resolver esses problemas, e as gravações só começaram de fato lá pela hora do almoço.

Depois de “Sakura”, ele gravou uma música que costumava chamar “Contention by Force”. Contudo, hoje a Lorena mostrou uma letra inteiramente nova (e mais legal ainda), com um título diferente, “Griffin’s Shadow”. Acho que esse é mais um bom exemplo daquelas reflexões que Zuckerkandl teve sobre os esboços de Beethoven, e as mudanças, sejam significativas ou apenas detalhes, podem acontecer mesmo no último instante. De qualquer forma, essa é a música mais pesada do disco, na qual eu e o Leandro tocamos com o bordão em Ré, e por isso ela exigiu muita pegada de bateria. Depois disso, fizemos uma pausa para almoçar, pois já eram mais de 15:00 hs. Dessa vez, fomos ao Ponto Chic.

Na volta, foi a vez de gravar “Period”, uma música com um clima bem “diafânico” e que tem uma linha de bateria realmente incrível. O Léo é um batera muito técnico e criativo, tenho certeza que essa é uma linha de batera que vai surpreender muito a quem ouvir o disco. Eu gravei um pequeno trecho dele tocando com meu ipod, quem quiser assistir, eu postei em meu facebook: facebook.com/cirovisconti

Depois foi a vez de “Ave”, justamente a música que eu fiz uma alteração de última hora, e que gerou toda a minha reflexão no post anterior. Essa música talvez surpreenda muito a quem já conhece o som do Diafanes. Isso porque ela tem fortes influências de música nordestina, especialmente do baião e do maracatu. O Léo mostrou que é um batera bastante versátil, e fez levadas muito legais!

Mas, a música mais difícil ele deixou para o final: “Musk”. Não sei se Musk é a música mais legal do disco (eu ainda não tenho minha favorita), mas é disparado a música mais difícil do Diafanes, não só para o Léo, como para o resto de nós também. Ela tem um clima totalmente influênciado por música árabe (todos os nossos discos tem uma música nesse clima árabe: “Shrub”, no See Through, “Hymn To Selene” no Obviously Clear, e agora “Musk”), e tem muitas partes diferentes, com diversas convenções de baixo, batera e guitarra em ritmos super rápidos, além de uma parte vocal dificílima. Eu trabalhei na composição dessa música por 3 anos, fora o tempo que passamos fazendo o arranjo, e hoje eu tenho muito orgulho dela, porque conseguimos incluir todas as idéias malucas que pensei para ela. Uma dessas idéias, foi um solo de guitarra e batera juntos, no qual rolam uns ritmos bem difíceis. Foi muito legal ver o Léo gravando essa parte da música hoje!

Depois disso todas as partes de bateria estavam gravadas. Tenho de dizer que, apesar de tocar com o Léo há um ano já, ele superou as minhas expectativas. Todas as linhas são incrivelmente criativas e foram muito bem executadas. Agora, o próximo a gravar é o Leandro, na quinta feira.
Meu ânimo não poderia estar melhor!

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Final da sesão de gravação de bateria. Da esquerda para direita: Luma Tomao, Lorena Hollander, Léo Baeta (depois de 10 horas de gravação), San Issobe, Leandro De César e Ciro Visconti.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

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Léo Baeta – 20/21 de Fevereiro de 2012.

 

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